Marcação a Mercado: o que é e como afeta seus investimentos em renda fixa
Marcação a mercado é a atualização diária do valor de um título de renda fixa com base nas taxas de juros praticadas naquele dia no mercado secundário. É o mecanismo que explica por que o saldo de um título de renda fixa pode cair no extrato mesmo sem que você tenha perdido dinheiro “de verdade” — se você não vender, a taxa contratada na compra é o que você vai receber no vencimento.
Como funciona
Para entender a marcação a mercado, você precisa entender uma relação fundamental do mercado de renda fixa: preço e taxa de juros andam em direções opostas. Quando as taxas de mercado sobem, o preço dos títulos existentes cai. Quando as taxas caem, os preços sobem. Isso não é arbitrário — é matemática financeira básica.
Imagine que você comprou um Tesouro Prefixado com vencimento em 2030, travando uma taxa de 13% ao ano. Seis meses depois, o mercado passa a exigir 14% ao ano para comprar títulos equivalentes — porque a Selic subiu, por exemplo. Seu título de 13% agora é menos atrativo que os novos de 14%. Se alguém for comprar o seu título no mercado secundário, só vai querer pagar um preço menor — aquele que, combinado com os 13% contratados, equilibre o retorno com os 14% que o mercado exige hoje. Resultado: o preço do seu título caiu.
O Tesouro Direto é obrigado a divulgar o preço atualizado dos títulos todos os dias. Isso é a marcação a mercado: o preço que você vê no extrato não é o valor que você vai receber no vencimento — é quanto alguém pagaria pelo seu título hoje, no mercado secundário. Se as taxas subiram, o preço caiu. Se as taxas caíram, o preço subiu — e você pode ter um ganho acima do contratado se vender nesse momento.
Essa volatilidade existe porque os títulos são ativos negociáveis. Você pode vender seu Tesouro Direto a qualquer dia útil para o próprio Tesouro Nacional (a recompra é garantida). O preço de recompra segue a marcação a mercado. Se você não vender e carregar o título até o vencimento, a oscilação diária é irrelevante: você vai receber exatamente a taxa que contratou na compra, independentemente do que aconteceu com as taxas ao longo do caminho.
Diferentes títulos são afetados de maneira diferente pela marcação a mercado. A sensibilidade de um título às mudanças de taxa é chamada de duration (duração modificada): quanto mais longo o prazo, maior a oscilação para cada variação de taxa. Um Tesouro Prefixado com vencimento em 2030 oscila muito mais do que um com vencimento em 2026 para a mesma mudança de taxa.
Por que isso importa para o seu dinheiro
A marcação a mercado é ao mesmo tempo um risco e uma oportunidade, dependendo de como você usa o título. É um risco para quem pode precisar vender antes do vencimento: se as taxas subiram depois da sua compra, você receberá menos do que esperava. É uma oportunidade para quem compra títulos longos quando as taxas estão altas e depois as taxas caem: o preço do título sobe, e você pode vender com ganho superior à taxa contratada — o que os operadores de renda fixa chamam de “surfar a curva de juros”.
O Tesouro Selic é praticamente imune à marcação a mercado. Por ser um título pós-fixado com correção diária, seu preço se ajusta suavemente — oscilações bruscas são raras e pequenas. Por isso ele é o instrumento ideal para a reserva de emergência: o valor nunca vai surpreender para baixo no dia em que você precisar resgatar. Veja mais no nosso guia sobre Tesouro Direto.
O Tesouro IPCA+ e o Tesouro Prefixado são os mais afetados pela marcação a mercado, especialmente nos vencimentos mais longos. Isso não é um defeito — é uma característica. Para quem investe com horizonte de longo prazo e não precisa do dinheiro antes do vencimento, a oscilação diária pode ser ignorada. Para quem tem prazo incerto ou pode precisar do capital antes do vencimento, títulos mais longos exigem maior tolerância a ver o saldo oscilar no extrato.
Na prática
Exemplo concreto de marcação a mercado: Em janeiro de 2026, você comprou R$ 10.000 em Tesouro Prefixado 2030 a 13,5% ao ano. Em abril, o Copom subiu a Selic mais do que o mercado esperava e as taxas prefixadas longas subiram para 14,5%. Seu extrato mostra agora R$ 9.400 — não porque você perdeu dinheiro, mas porque o mercado ajustou o preço do título para refletir as novas taxas. Se você não vender, vai receber os 13,5% ao ano até 2030, exatamente como contratado. O valor de R$ 9.400 é o preço de venda antecipada hoje — não o seu patrimônio no vencimento.
O lado positivo — “surfando a curva”: No cenário inverso, se após a sua compra as taxas caírem de 13,5% para 11%, seu título vai aparecer no extrato acima do valor contratado — talvez R$ 11.200. Você pode vender nesse momento e embolsar um ganho maior do que os 13,5% proporcionais ao tempo. Investidores sofisticados usam deliberadamente esse mecanismo: compram títulos longos em momentos de taxas altas, esperando a queda dos juros para realizar o ganho de capital antecipado.
Comparação de sensibilidade entre títulos (mai/2026):
- Tesouro Selic 2027: variação de preço para +1% na Selic ≈ 0,1% — praticamente insensível.
- Tesouro Prefixado 2027: variação de preço para +1% na taxa de mercado ≈ -1,5%.
- Tesouro IPCA+ 2035: variação de preço para +1% na taxa real de mercado ≈ -8% a -10%.
- Tesouro IPCA+ 2045: variação de preço para +1% na taxa real de mercado ≈ -20% ou mais.
Perguntas frequentes
Se o saldo caiu no extrato, devo resgatar o Tesouro Direto?
Não necessariamente. Se o saldo caiu porque as taxas de mercado subiram (e não por um problema com o emissor, que no Tesouro Direto é o governo federal), a queda é temporária e não significa perda permanente. Se você carregar o título até o vencimento, receberá exatamente a taxa que contratou. Resgatar no momento de queda transforma uma oscilação teórica em perda real. A decisão de resgatar deve ser baseada na sua necessidade de liquidez — não na variação do preço diário.
A marcação a mercado vale para CDBs também?
Formalmente sim, mas na prática a maioria dos CDBs disponíveis ao investidor pessoa física não tem liquidez antes do vencimento — ou seja, você não pode vender antecipadamente. Isso significa que a marcação a mercado existe contabilmente, mas não tem efeito prático no seu bolso: você vai carregar até o vencimento e receber a taxa contratada. CDBs com liquidez diária oscilam menos por serem geralmente pós-fixados de curto prazo. A marcação a mercado é mais relevante nos títulos públicos negociados pelo Tesouro Direto.
O que é duration e por que ela importa?
Duration (ou duração modificada) mede a sensibilidade do preço de um título a variações nas taxas de juros. Um título com duration de 7 anos perde aproximadamente 7% de valor para cada 1 ponto percentual de alta nas taxas. Duration alta = mais oscilação. Títulos longos têm duration maior; títulos curtos têm duration menor. Para o investidor prático: quanto maior o prazo do título e menor o cupom, maior a duration — e maior a oscilação diária no extrato. O Tesouro IPCA+ 2045 tem duration muito alta; o Tesouro Selic tem duration próxima de zero.
Posso ganhar dinheiro comprando e vendendo Tesouro Direto antes do vencimento?
Sim, é possível — mas exige entender o ciclo de juros e aceitar o risco do movimento contrário. A estratégia clássica é comprar títulos longos (Prefixado ou IPCA+) quando as taxas estão altas, esperando que o Copom inicie um ciclo de corte. Com a queda das taxas, os preços sobem e você pode vender com ganho superior à taxa contratada. O risco é que as taxas subam ainda mais antes de cair: você ficará com um saldo menor no extrato enquanto espera. Para quem não tem experiência com ciclos de juros, carregar até o vencimento é a abordagem mais segura.
Por que o Tesouro Selic quase não sofre com marcação a mercado?
Porque o Tesouro Selic é um título pós-fixado que se ajusta diariamente à taxa Selic. Quando a Selic sobe, o título imediatamente passa a render mais — não há desalinhamento entre a taxa contratada e a taxa de mercado, pois são a mesma coisa. Em títulos prefixados ou IPCA+, você travou uma taxa que pode divergir das taxas de mercado futuras — e essa divergência gera a oscilação de preço. No Tesouro Selic, como o rendimento diário se ajusta à taxa de mercado corrente, o preço permanece estável próximo de R$ 1,00 por unidade de valor nominal.